desfaço a expressão de espanto do meu rosto e admiro o teu corpo de animal cansado, ando na corda bamba da tua voz e digo amo-te com a ponta dos dedos escapa-se a palavra por entre a memória
amo-te
mesmo sem saber se é verdade a minha pele sussurra-me esta cor de paixão que me amacia a pele em dia de nevoeiro. pode ser irreal mas a minha voz molda-se a uma só palavra realidade de momentos e de uma vida estilhaçada ouves-me?
deixa de me ouvir e não te aterrorizes não estou cá adomeci a ouvir o teu respirar. parti só porque me pediste. seguras-me com o fio de seda. encanto-me em silêncio.
se um dia subires a escada encontras-me cadáver. mas aprendo a entregar ao teu sopro a morte e silenciar dias depois de hoje.
Posted at 05:19 pm by rosa
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sim ata-me as mãos e vê se me dóis
encontro-te ainda nos jardins perdidos de silvas quentes da memória. quero deixar-te e sinto o cheiro da tua pele roçar-me os olhos cansados de solidão e perdas. na manhã em que já não estavas sopraste o meu nome. descanso só mais hoje na tua casa, subo os degraus como a primeira vez e o desejo de que seja, agora sim, a última. conheço-os e surpreendo-me com a música da tua voz. estou em paz e vejo-te quando achava que a tua imagem já só podia ser luz cega e tempestade.
não me dóis, cantas-me
e quando o leão vier rasgar-me a pele de novo eu tenho uma parede de metal construída de ruas novas e, de novo, com a cor que inventei para ti, e que só tu e eu sabemos guardar. não me fujas. não te escapes pela fraqueza dos meus ossos partidos de solidão.
estou de pé como uma árvore centenária
sobrevivo às ondas escuras do meu mar de inverno
Posted at 08:19 pm by rosa
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vejo o movimento dos corpos no espelho escuro no calor no escuro da noite
desenho com fios transparentes uma história de amor
sou peça de puzzle rasgada nos cantos amaciados por outras mãos
foi outra noite.
outra praça.
outro som de vozes outros caminhos de pedras redondas
ressuscito ao som da tua voz de animal doce e enraizado - revivo essas palestras de sons em minutos de solidão
foste sol e águas velozes de outro rio - violência de sonhos esquecidos em livros e pó, em filmes planos de cinemas modernos, em leituras irreais de frases inexistentes
amo a tua imagem no meu sono cansado
Posted at 09:32 pm by rosa
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Tenho o sono estilhaçado e as memórias cortadas a sangue frio. Quando me amaciam a pele o choro dos poros torna-se poderoso e incansavelmente intolerante. Olho no silêncio de mim os mais altos castelos e trepo sem cansaço aos invisíveis muros de vidros partidos. Sou outro nome. Outra casa. O silêncio que nunca soube desenhar. Estou em construção e desalinho. Em cansaço e revolta. Em paz.
Posted at 09:30 pm by rosa
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arrastada no sono e na desistência dos corpos deixo-me afogar.vejo a nossa dança de harmonia sonora através da água turva. deixo-te ir e embalo-te ainda. percorro-te na memória e reconheço o cheiro da nossa madrugada. deixo-te respirar noutra pele mas não te largo. és o meu sonho de vidros partidos. em ruína.
Posted at 11:54 am by rosa
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está o calor do sono atrasado o quente dos planos desmaiados do corpo dormente de cansaço solto gargalhadas de mim quando o corpo já não é meu e tenta descansar na cama de pregos. abano os meus ossos e vejo que a carne já quase não segura os meus abalos e o vento do verão. é preciso ver de repente outra cara. falar com outra voz. pegar na guitarra onde moro e ouvi-la tocar e cantar outra vez. é preciso ver raízes. comê-las e voltar a tocar o chão. preciso regressar. preciso de ver que ainda posso chorar só porque não cabem as borboletas dentro do meu peito. tenho de limpar o ódio das minhas mãos e ficar pequena.
tenho de estar contigo. tens de me levar. de chegar a casa que é nossa, aquela a que só faltam as paredes. tens de sorrir porque a pela seca dorme no chão e já quase não existe.
é preciso que de repente me apeteça escrever uma carta sem que isso me faça doer as mãos - é preciso que te possa escrever a ti porque quase não te conheço e já te sei tanto. já és casulo na minha caixa de sapatos amarrotada.
é preciso que as cidades esperem por mim e pela tua voz
é preciso que me pegues no corpo adormecido e me leves para onde não há indiferença
preciso escrever e depois rir e depois dormir e depois, como se a chávena nunca se tivesse esquecido de mim, preciso de fazer um chá e ver se o cheiro ainda te comove.
quero fazer mais uma vez deste sofá uma concha e ver contigo filmes que contam a nossa história de amor
e depois que tudo recomece, que nada tenha um quase final escrito a carvão
Posted at 04:52 pm by rosa
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chama-me
ignora o silêncio dos meus gritos
limpa o sorriso da minha alegria obriga-me a ser verdadeira
faz-me falar sem capa nem dança nas palavras
ouve e chama-me não me deixes adormecer agarra-me no tempo certo
olha a minha pele e pinta-lhe um arco-íris de sombra nos poros sombrios
estou à espera
estás a caminho
Posted at 11:21 am by rosa
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és como a minha pele que se aproxima de mim quando já não sei o que eu sou ou que ruas percorro no cansaço e irreconhecimento dos meus passos. és a minha casa. já não tenho forças para palavras quero adormecer. quero cantar-te no meu sono onde
só tu
tens o toque do veludo e verão. não me devolvas à solidão, ela não sabe falar de mim se não quando dias assim são ruas inteiras que não vejo o fim está calor deixa-me não me construas mais dores e silêncios não me construas sorrisos que são indiferenças disfarçadas. não sei ter o cheiro do ar.
Posted at 08:53 pm by rosa
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onde estou planeio viagens e vejo a vida como decoração ritmo de tara perdida gritos de paz cantos de sereia de outros mares vejo outra vida outro sono outro colo transparente sonho de pedra ritmo que quero experimentar e que construo todos os dias. beijo.
amo-te
irreal palavra que rebola como a música que me enche as mãos e me faz doer os ossos porque não cai não desiste não descansa não se infiltra nos ouvidos chama mais por mim.
amo
porque a vida és quem fores és risos e viagens és tu e quem mais não cabe e não sonha comigo. faço-te um altar de silêncio. cabes vazio na minha mão e enches-te de mim. és música não palavras só choro na desconsolada parede do metro. és muitos, és só tu quando o meu olhar estala na tua indiferença, quando me agarras mesmo quando estou quase a tocar o chão e já sonho com os estilhaços, já lhes sinto o cheiro. cheiro a minha dor que ainda não é, que é poucas vezes. muito poucas vezes.
Posted at 08:37 pm by rosa
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Nunca te perdes no fio lasso da minha tenda de circo
És um outro rasgo fio invisível na minha máquina de costura
no som repetido, no café habitual no cheiro da laranja que se antecipa a ti
nas danças na carpete no som igual ao calor do verão que não te sabe nos dias e noutros dias
és como um som
um lençol de linhas intermináveis
um cheiro de água fresca
Posted at 10:13 pm by rosa
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