Arco-Íris de Sombra





Para um amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo de algibeira. Mas esse relógio não marca o tempo inútil. São restos de tabaco e de ternura rápida. É um arco-iris de sombra, quente e trémulo. É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa


*as vossas palavras*

   

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Monday, September 10, 2007
fio de seda

desfaço a expressão de espanto do meu rosto e admiro o teu corpo de animal cansado, ando na corda bamba da tua voz e digo amo-te com a ponta dos dedos escapa-se a palavra por entre a memória

amo-te

mesmo sem saber se é verdade a minha pele sussurra-me esta cor de paixão que me amacia a pele em dia de nevoeiro. pode ser irreal mas a minha voz molda-se a uma só palavra realidade de momentos e de uma vida estilhaçada ouves-me?

deixa de me ouvir e não te aterrorizes não estou cá adomeci a ouvir o teu respirar. parti só porque me pediste. seguras-me com o fio de seda. encanto-me em silêncio.

se um dia subires a escada encontras-me cadáver. mas aprendo a entregar ao teu sopro a morte e silenciar dias depois de hoje.


Posted at 05:19 pm by rosa
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Sunday, September 02, 2007
mar de inverno

sim ata-me as mãos e vê se me dóis

encontro-te ainda nos jardins perdidos de silvas quentes da memória. quero deixar-te e sinto o cheiro da tua pele roçar-me os olhos cansados de solidão e perdas. na manhã em que já não estavas sopraste o meu nome. descanso só mais hoje na tua casa, subo os degraus como a primeira vez e o desejo de que seja, agora sim, a última. conheço-os e surpreendo-me com a música da tua voz. estou em paz e vejo-te quando achava que a tua imagem já só podia ser luz cega e tempestade.

não me dóis, cantas-me

                 e quando o leão vier rasgar-me a pele de novo eu tenho uma parede de metal construída de ruas novas e, de novo, com a cor que inventei para ti, e que só tu e eu sabemos guardar. não me fujas. não te escapes pela fraqueza dos meus ossos partidos de solidão. 

estou de pé como uma árvore centenária

sobrevivo às ondas escuras do meu mar de inverno  


Posted at 08:19 pm by rosa
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Friday, August 24, 2007
dança urbana
vejo o movimento dos corpos no espelho escuro no calor no escuro da noite
desenho com fios transparentes uma história de amor
sou peça de puzzle rasgada nos cantos amaciados por outras mãos
 
foi outra noite.
        outra praça.
                  outro som de vozes outros caminhos de pedras redondas
 
ressuscito ao som da tua voz de animal doce e enraizado - revivo essas palestras de sons em minutos de solidão
 
foste sol e águas velozes de outro rio - violência de sonhos esquecidos em livros e pó, em filmes planos de cinemas modernos, em leituras irreais de frases inexistentes
 
amo a tua imagem no meu sono cansado

Posted at 09:32 pm by rosa
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vidro

Tenho o sono estilhaçado e as memórias cortadas a sangue frio. Quando me amaciam a pele o choro dos poros torna-se poderoso e incansavelmente intolerante. Olho no silêncio de mim os mais altos castelos e trepo sem cansaço aos invisíveis muros de vidros partidos. Sou outro nome. Outra casa. O silêncio que nunca soube desenhar. Estou em construção e desalinho. Em cansaço e revolta. Em paz.



Posted at 09:30 pm by rosa
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Wednesday, August 22, 2007
espelhos partidos
arrastada no sono e na desistência dos corpos deixo-me afogar.vejo a nossa dança de harmonia sonora através da água turva. deixo-te ir e embalo-te ainda. percorro-te na memória e reconheço o cheiro da nossa madrugada. deixo-te respirar noutra pele mas não te largo. és o meu sonho de vidros partidos. em ruína.

Posted at 11:54 am by rosa
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Tuesday, June 05, 2007
regresso a cada um

está o calor do sono atrasado o quente dos planos desmaiados do corpo dormente de cansaço                                     solto gargalhadas de mim                                                                                                                                           quando o corpo já não é meu e tenta descansar na cama de pregos. abano os meus ossos e vejo que a carne já quase não segura os meus abalos e o vento do verão.             é preciso ver de repente outra cara. falar com outra voz. pegar na guitarra onde moro e ouvi-la tocar e cantar outra vez. é preciso ver raízes. comê-las e voltar a tocar o chão. preciso regressar. preciso de ver que ainda posso chorar só porque não cabem as borboletas dentro do meu peito. tenho de limpar o ódio das minhas mãos e ficar pequena.   

tenho de estar contigo. tens de me levar. de chegar a casa que é nossa, aquela a que só faltam as paredes. tens de sorrir porque a pela seca dorme no chão e já quase não existe.

é preciso que de repente me apeteça escrever uma carta sem que isso me faça doer as mãos - é preciso que te possa escrever a ti porque quase não te conheço e já te sei tanto. já és casulo na minha caixa de sapatos amarrotada.

é preciso que as cidades esperem por mim e pela tua voz

é preciso que me pegues no corpo adormecido e me leves para onde não há indiferença

preciso escrever e depois rir e depois dormir e depois, como se a chávena nunca se tivesse esquecido de mim, preciso de fazer um chá e ver se o cheiro ainda te comove.

quero fazer mais uma vez deste sofá uma concha e ver contigo filmes que contam a nossa história de amor

e depois que tudo recomece, que nada tenha um quase final escrito a carvão 


Posted at 04:52 pm by rosa
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Monday, June 04, 2007
espera

chama-me

ignora o silêncio dos meus gritos

limpa o sorriso da minha alegria obriga-me a ser verdadeira

faz-me falar sem capa nem dança nas palavras

ouve e chama-me não me deixes adormecer agarra-me no tempo certo

olha a minha pele e pinta-lhe um arco-íris de sombra nos poros sombrios

estou à espera

estás a caminho


Posted at 11:21 am by rosa
as vossas palavras foram (1)  

 
Sunday, June 03, 2007
muro de indiferença

és como a minha pele que se aproxima de mim quando já não sei o que eu sou ou que ruas percorro no cansaço e irreconhecimento dos meus passos. és a minha casa. já não tenho forças para palavras quero adormecer. quero cantar-te no meu sono onde

só tu

tens o toque do veludo e verão. não me devolvas à solidão, ela não sabe falar de mim se não quando dias assim são ruas inteiras que não vejo o fim está calor deixa-me não me construas mais dores e silêncios não me construas sorrisos que são indiferenças disfarçadas. não sei ter o cheiro do ar.


Posted at 08:53 pm by rosa
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quase estilhaço

onde estou planeio viagens e vejo a vida como decoração ritmo de tara perdida gritos de paz cantos de sereia de outros mares vejo outra vida outro sono outro colo transparente sonho de pedra ritmo que quero experimentar e que construo todos os dias. beijo.

amo-te

irreal palavra que rebola como a música que me enche as mãos e me faz doer os ossos porque não cai não desiste não descansa não se infiltra nos ouvidos chama mais por mim.

amo

porque a vida és quem fores és risos e viagens és tu e quem mais não cabe e não sonha comigo. faço-te um altar de silêncio. cabes vazio na minha mão e enches-te de mim. és música não palavras só choro na desconsolada parede do metro. és muitos, és só tu quando o meu olhar estala na tua indiferença, quando me agarras mesmo quando estou quase a tocar o chão e já sonho com os estilhaços, já lhes sinto o cheiro. cheiro a minha dor que ainda não é, que é poucas vezes. muito poucas vezes.


Posted at 08:37 pm by rosa
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Saturday, June 02, 2007
fio transparente

Nunca te perdes no fio lasso da minha tenda de circo

És um outro rasgo fio invisível na minha máquina de costura

no som repetido, no café habitual no cheiro da laranja que se antecipa a ti

nas danças na carpete no som igual ao calor do verão que não te sabe nos dias e noutros dias

 

 

és como um som

                           um lençol de linhas intermináveis

                                                                                 um cheiro de água fresca


Posted at 10:13 pm by rosa
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